Sérgio Alves: “O design é a imagem do que nós somos”

13 Jul 2015

Sérgio Alves, designer

Venceu três prémios Graphis e a certificação de excelência tipográfica pelo The Type Directors Club. Sérgio Alves, gere, no Porto, o seu próprio atelier de design, onde trabalha com a sua equipa. A Dialetu foi conhecer o designer portuense.

A tua inspiração para os trabalhos que te pedem e vão surgindo, normalmente vem de onde? Como é que te inspiras?

Cada projeto em que estamos envolvidos e em que vamos trabalhando tem as suas particularidades. Se estás a trabalhar num livro, tens de entrar nesse mundo, já que tens um conteúdo completamente distinto de quando estás a fazer um cartaz, por exemplo. A nossa inspiração não tem a ver com uma inspiração generalista que vale para tudo, mas tem muito mais a ver com nós conseguirmos entrar dentro dos projetos. No caso em concreto de uma peça de teatro, a nossa inspiração direta é o conteúdo e os próprios objetos que nos chegam. Tudo começa com falar com o encenador, ler o texto, conhecer e explorar. Qualquer projeto em que comecemos a trabalhar tem muito a ver com entrarmos dentro dele, estarmos com as pessoas, falarmos com as mesmas e percebemos o que elas querem transmitir.

 

Assim sendo, além da pesquisa, também te envolves no terreno…

Sim, a minha função no início é ver aquilo que já está feito para trás, mas também pegar nisso e perceber como posso adaptar isso à visão do cliente. A nível gráfico, é complicado dizer-te, porque eu não vou ver os cartazes que foram feitos para a peça do William Shakespeare de há muitos anos atrás, não tem a ver com isso, tem a ver com o conteúdo real. A inspiração a nível gráfico pode surgir de algo que não tem nada a ver com o que já está para trás. Posso andar na rua e de repente ver um painel ou ver um letreiro na rua, de um restaurante ou seja do que for e dizer: gosto daquela tipografia, se calhar podíamos pensar fazer algo daquele género, ou seja, inspiração gráfica tem muito a ver com o dia-a-dia, com o que vais encontrando, naquilo que vais tropeçando. A inspiração para fazer, objetivamente, o trabalho está ligada ao conteúdo que nos chega.

 

O processo de criação é algo tão natural como quotidiano? Faz parte de ti, intrinsecamente?

Nós somos designers e criativos a tempo inteiro. E acima de tudo somos críticos do que nos rodeia, isto é, tu tens um horário das nove da manhã às cinco da tarde, tu não és criativo das nove às cinco. É, definitivamente, algo do dia-a-dia: nós não conseguimos desligar, deixar de ser criativos e olhar para o mundo como se não nos importassem essas questões. É aquela velha história, para o bem ou para o mal, nós vamos a qualquer lado e temos sempre esta visão. Podemos estar a ir ver um concerto e podíamos ir ao concerto só para ouvir a música e a apreciar, mas isso não nos é suficiente. Pode até ser a melhor banda do mundo, pode ser o melhor concerto do mundo, mas se eles fazem uma projeção de umas letras e aquelas estão muito mal tratadas ou as imagens não foram bem escolhidas, de repente o nosso foco foge para aí. Temos sempre essa avaliação e esse olhar crítico.

 

Tens trabalhos mais plásticos e, por vezes, com outra perspetiva estética. Hoje em dia, tudo isto é muito subjetivo e discutível. Apesar disso, a linha é muito ténue. Tu revês-te mais em que papel: artista, criativo ou designer? Como é que definirias o teu trabalho?  

O meu campo de trabalho é o design. Definitivamente, sou designer acima de tudo. Não acho que o que eu faço com design tenha que ser meramente design, no sentido em que eu para ser designer não tenho de estar oito horas a brincar com o photoshop. Já disse várias vezes que gosto muito do desconforto. Não me consigo imaginar a ter um trabalho muito mecânico. Pode ser bonito, correto, mas é demasiado correto. Eu gosto mais de não saber o que vou fazer amanhã. Não sei se vai surgir um projeto em que eu tenha de ir para uma oficina trabalhar com madeira. O dia-a-dia pode ser sempre diferente, nunca ser uma rotina. Os projetos são diferentes, os clientes são diferentes, aquilo que cada um quer também é diferente, por isso tens que te estar sempre a transformar.

 

É muito dinâmico e não estático?

Sim. Tal como outras áreas artísticas, o objetivo é estar sempre em constante mutação. A partir do momento em que fiques estático, não vai ser tão interessante para as pessoas. Já não estás a criar nada, arranjaste uma solução e estás a aplicar essa solução a tudo. A maior parte das pessoas que vêm ter connosco estão à espera que nós acrescentemos sempre algo aos projetos. Estão à espera que surpreendamos. Sou designer, mas sou muita coisa… Um dia posso ser carpinteiro, no dia a seguir posso ser trolha, não no sentido de profissão, mas de explorar, fazer acontecer e eu próprio desafiar-me a mim mesmo. Eu podia ir à net, arranjar duas fotografias de madeira e fazer isso, mas será que é assim tão interessante? Será que não é mais interessante para mim meter mesmo as mãos na massa?

 

Existe uma dicotomia entre o humano/orgânico e o digital/virtual/tecnológico. Crês que caminhamos para onde? Qual é a tendência principal? Qual é a tua visão sobre isso?

Boa pergunta (risos). Eu acho que depende muito da altura. Acima de tudo, penso que as pessoas decidem o que vai acontecer. É a questão da moda, das tendências. Meia dúzia de pessoas decidem que existe uma tendência e as outras vão todas atrás. Mas a partir do momento em que haja pessoas a quebrar essa tendência, essa deixa de existir, passa a haver outra tendência. Nesta pergunta tinha muito por onde pegar…

 

Mas revês-te em qual papel, nas pessoas que criam as tendências ou nas que as quebram?

Numa fase inicial de trabalho, tens sempre de seguir tendências. Não podes começar a aprender sozinho, tens de olhar para o lado, perceber o que os outros fizeram, como fizeram e só depois de perceber isso é que podes criar um caminho novo. Não dá para te dissociares logo desses métodos iniciais. Não me revejo num nem noutro. Não acho que seja um “revolucionário”, não vou para o lado oposto de tudo o que as pessoas fazem. Não faço isso, não penso nisso e nem acho que seja importante ou positivo, da minha perspetiva. Mas também não sou uma pessoa de ‘ok, neste momento está-se a fazer isto, vou tentar fazer isto também’. Eu tenho consciência. Estou muito atento a tudo, tenho consciência do que se faz, olho, vejo, falo com as pessoas, estou presente. Acho que é essencial ter essa atenção constante. No entanto, isso não me influencia de forma direta, mas de uma forma mais crítica. Essa questão crítica ajuda-te a definir o teu próprio caminho.

 

Falaste que os teus clientes esperam sempre que acrescentes algo de novo, que surpreendas e que estejas sempre em evolução. Atualmente estamos todos frenéticos, todos pedimos atenção para os nossos próprios projetos. O que é que fazes para te diferenciar dos outros? Em que é que o teu trabalho é diferente dos demais?

Isso é como ir comer um gelado e um dia ires a uma gelataria e no outro ires a outra, porque são todos bons, mas num dia apetece-te uma coisa, no outro apetece-te outra. Essa distinção não terá tanto a ver se tu fazes um trabalho muito clássico, mais digital ou como é o trabalho em si, em termos formais, mas tem mais a ver com as pessoas. Eu podia ser o melhor designer do mundo, ter os trabalhos mais fantásticos, e, mesmo assim, ia ter clientes que não iam querer trabalhar comigo. O facto de o teu trabalho ser muito muito bom, não quer dizer que as pessoas queiram trabalhar contigo. É uma questão muito diferente de outras áreas tão simples como o futebol. Se tu és o melhor jogador do mundo, todos os clubes te querem, desde o mais pequeno ao maior. É uma verdade universal que tu és um bom jogador de futebol. Ponto. Enquanto que no design e nessas áreas criativas, isso não acontece. Até pode haver gente que se calhar até não é tão interessante e tão reconhecida e, mesmo assim, tem muito mais trabalho. Tem tudo a ver com relações pessoais, pois tu trabalhas com pessoas para pessoas. A empatia que crias, a motivação, os teus métodos de trabalho, acabam por ser mais importantes neste meio que o portefólio que se mostra. A confiança também é outro fator muito relevante. Se eu conhecer o teu trabalho e souber o que vais acrescentar ao meu projeto humanamente, aí serás uma mais-valia. Os projetos mais interessantes em que tenho estado envolvido têm começado por pessoas de mente aberta, que querem que acrescente sempre algo. E, sendo assim, não estou a prestar um serviço, mas sim a interagir, a desafiar.

 

Desse modo, acabas sempre por dar sugestões aos clientes e ter mais ideias?

Sim. Recentemente, recebemos um livro de ilustração para fazer paginação e achamos que podíamos ajudar a autora a melhorar a obra com as nossas ideias. Fizemos uma reunião, apresentamos as nossas propostas para tornar o livro mais apelativo e ela concordou e aplicou ao conteúdo visual. De repente, alteramos um bocadinho o livro, o projeto mudou. Mas porque nós tivemos interesse nisso, uma vez que podíamos simplesmente ter feito o que pediram e isso seria o normal. Contudo, não é isso que me interessa fazer. Claro que também depende dos clientes e da abertura que há para isso.

 

Falamos de reconhecimento. Qual é a importância dos prémios?

A nível prático, de dia-a-dia, é quase nenhuma. Como te disse, se fosse jogador de futebol e ganhasse muitos prémios, mais um prémio seria extremamente importante, pois significaria mais uma capa de jornal, mais um clube a querer-me, mais vida melhor. O ganhar um prémio em design, até este momento, a nível de trabalho e do design, não sinto que tenha sido importante.

 

Porquê?

Não te sei explicar se é a cultura portuguesa, se não estamos preparados, se as pessoas em geral ainda não dão valor a isso, se apenas as pessoas da área dão valor… Eu não sei. Eu tento fazer um paralelismo com a arquitetura. A arquitetura já conquistou um espaço na sociedade e faz parte da cultura geral. Ouve-se falar dos arquitetos que ganharam os prémios e começa a ser bastante comum as pessoas conhecerem aqueles arquitetos e isso trouxe-lhes mais trabalho em Portugal, mais visibilidade. Acho que no design ainda estamos muito a crescer para isso, numa fase inicial. Não é que não seja importante, mas nunca senti que isso me trouxesse mais trabalho.

 

Mas então não teve um real impacto na tua vida?

Na minha vida prática, não. Para mim mesmo, pessoalmente, sim. Independentemente de eu ter mais dinheiro ou não, de haver mais clientes e projetos ou não, tive o reconhecimento por aquele projeto. Em último caso, o mais importante para mim é isso, o reconhecimento. Já me fizeram essa pergunta muitas vezes e todas as vezes eu penso naquilo que realmente sinto e como responder a isso. E, na verdade, os prémios só me obrigam a estar mais alerta para mim mesmo, ou seja, isso tem de te obrigar a evoluir. Os clientes beneficiam mais com os prémios do que aquilo que eles pensam. A partir do momento que faço um trabalho e esse trabalho ganha um prémio e, se para o ano o cliente me pedir novamente o trabalho, eu não posso fazer pior que o ano anterior. Tenho mesmo de manter a qualidade para mim próprio, tenho mesmo de me esmerar para não descer do patamar.

 

Em Portugal, as pessoas estão abertas e despertas, têm consciência da cultura do design?

É uma questão de educação. Não podes exigir às pessoas que de um dia para o outro deem valor ao design. Temos de ser nós próprios, muitas vezes, a percorrer esse caminho. Participar em prémios, fazer os nossos investimentos, fazer com que o design saia em jornais, revistas, online, que se fale de design de forma mais pública. Aos poucos e poucos que isso comece a entrar na vida das pessoas, não pelo design que existe na rua, que muitas vezes passa despercebido, mas se vires uma ou duas vezes por dia uma notícia sobre design, ao fim de um mês, dois meses, um ano, dois anos, já ouviste falar muito de design e a tua visão sobre o assunto começa a mudar. A questão dos prémios também é educacional, eu estou a fazer isto não só por mim, mas um dos benefícios de isto acontecer é que o design é mais falado a nível geral. Idealmente, todos os edifícios deveriam ser desenhados por arquitetos com grande sensibilidade, e embora exista a noção que é preciso ter um arquiteto, no design isso ainda não existe. Começa a existir agora de uma forma bastante lenta e a progredir, mas não é evidente. Também parte muito das instituições, das pessoas à frente das instituições, porque existe um dever aí: como personalidade pública, tenho o dever de primar aquilo que dou às pessoas. É a mesma coisa que levares alguém a jantar a tua casa e tirares um saco com hambúrgueres do MacDonald’s, por exemplo. Se tens um papel de “líder”, tens o dever de oferecer coisas boas para educar as pessoas. Porque se tu convidares alguém para jantar em tua casa e fazes um prato diferente, ao outro dia essas pessoas vão é falar sobre isso, dizer aos amigos e, provavelmente, quando forem eles a fazer o jantar, vão fazer o mesmo prato. É tudo uma cadeia. E no design é exatamente igual, tem de começar pelo topo, pelos líderes, pelos governantes. Se assim for, isso vai influenciando as pessoas, caso contrário, é muito difícil. E, para mim, o design é uma questão sociológica, do dia-a-dia, faz parte da sociedade, da cultura e do que é visível, é a imagem do que nós somos.

 

Qual foi teu projeto mais marcante? Porquê?

Estás-me a pedir para escolher o meu filho preferido? Depende muito da altura e do que levou a seguir, depende muito das circunstâncias. Mas posso-te responder de uma forma mais romântica: o projeto mais marcante é aquele que vem sempre a seguir, porque o que está feito, está feito, acabou e já não posso fazer nada em relação ao passado.

 

Até que ponto é que aquilo que tu és como pessoa e a tua personalidade influenciam o teu processo de criação e o que tu crias?

Influencia, obviamente. Acho que nunca consigo fazer meramente o que me mandam. Está na minha natureza tanto pessoal como gráfica, envolver-me o máximo possível, tentar arranjar coisas novas e surpreender.

 

Não existe rotina no vosso dia-a-dia?

Não. Um designer nunca é só um designer. É sempre mais. Todos os dias é dia de design e mais qualquer coisa. Existem várias camadas, várias profissões, várias ideias, várias áreas. O dia-a-dia não é chato, é sempre diferente. Tanto posso ter de ir para uma carpintaria, como posso ter de ir para o meio de um campo de batatas porque o projeto assim o pede. Por isso, essa incerteza existe. Amanhã serei designer mais o quê? Eu posso afirmar que nós somos bastante infelizes, porque queremos sempre mais.

 

És uma pessoa ligada ao desconforto. O que te falta fazer? O que queres descobrir, desbravar, como vês o futuro? Que planos fazes a longo prazo?

Neste momento acho que é um erro pensar a longo prazo, principalmente pelos tempos que vivemos e pelo país em que estamos. Então aí é que vamos ser mesmo infelizes. É frustrante fazer planos a um ano e chegar lá e não acontecer. Não gosto de projetar. Tenho alguns objetivos, apesar disso. Sinto a necessidade de fazer parte da cidade, de ver o meu trabalho na cidade, de influenciar instituições, pessoas, de o meu design fazer parte do dia-a-dia das pessoas. Não te sei dizer se será no Porto, em Lisboa, noutro país ou noutro lugar qualquer.

 

Viver nessa incerteza é frustrante ou desafiante? É ou não contraproducente para um trabalho criativo?

Não é contraproducente, mas tens de ter muita estaleca. A linha que separa a frustração da extrema felicidade é muito ténue. Porque podes estar num ponto em que aquilo que estás a fazer pode ser a coisa mais fixe do mundo ou pode ser a coisa mais frustrante do mundo e isso é muito normal de acontecer no dia-a-dia. Temos de saber viver com isso, não ter tanta expectativa e é preciso saber gerir isso. É preciso despreocuparmo-nos e saber adaptar-nos. 

 

Entre os produtos da Dialetu, o designer elege o modelo V03D da Void Watches como seu favorito, um relógio considerado pela Esquire UK uma das melhores criações de 2014/2015 no que a acessórios de moda diz respeito. 

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Publicado em Entrevistas

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