Ana Falé: “A arte é vida e saber viver é uma arte”

25 Set 2015

O trabalho de Ana Falé não deixa indiferente quem o aprecia

A emergir conjuntamente com uma nova geração de ilustradores e artistas em Portugal, Ana Falé demarca o seu trabalho com aquilo que afirma ser a abordagem de qualquer criativo: a individualidade. Em exposição na Galeria Red Nakim, até novembro no Porto, a ilustradora revela estar a preparar mais uma exposição para breve. Viaja com as ilustrações de Ana Falé até ao seu "universo interior."


Como começou o gosto pelas artes/ilustração?

Não me lembro quando começou o gosto por esta área porque na verdade sempre o tive em mim. Desde pequena. Claro que, em criança, não sabia dizer que iria fazer uma licenciatura em Design e Multimédia e que no ano seguinte ia fazer trabalhos de ilustração em regime freelancer. Mas estruturando melhor as coisas, posso dizer que os quatro anos de universidade me sugaram a parte artista da alma. Desenhei muito menos durante esse período e dediquei-me menos ao lado ‘arte’ da vida. Passado esse tempo, fui aos poucos reacendendo uma das minhas paixões e recomeçando a desenhar. Até que um dia, num curso de empreendedorismo decidi que, como projecto piloto, iria começar a minha assinatura na ilustração.

 

Em que te inspiras verdadeiramente para criar as tuas ilustrações?

Cada pessoa tem o seu universo interior e eu inspiro-me no meu e no que dele faz parte: as pessoas, vivências, lugares, emoções, sentimentos e, como não podia faltar, nas partes amargas da vida.

 

Que assuntos estão mais presentes no teu portefólio? 

Geralmente foco-me mais nas pessoas e nas suas identidades escondidas ou não reveladas. Intriga-me o assunto porque me fascina o lado que todos nós temos e não transparecemos. Aquele que só algumas pessoas têm o privilégio de conhecer, as que realmente nos são intrínsecas. Talvez por isso, acabo muitas vezes por representar a figura humana como não a vemos no exterior mas como imagino que seja o seu interior.

 

Em que é que o design é díspar da ilustração? 

No princípio, e talvez na liberdade e condicionalismos de cada área (de cada exercício e respectivo objectivo).

 

Como trabalhas as duas áreas: de forma diferente ou semelhante?

Diferente. Depende dos casos.

 

Como te vês a ti própria, como te auto-analisas enquanto artista? 

As minhas auto-análises são muito introspectivas. Prefiro que cada pessoa me entenda ao interpretar o meu trabalho quando o observa.

 

Quais são os principais desafios de se ser ilustrador em Portugal? Porquê?

O principal desafio é a sobrevivência. Porque a ilustração não é muito consumida em Portugal.


Como pensas que os portugueses vêem esta área?

A ilustração não se sente compreendida ou valorizada por muita gente. Claro que, com algumas mentalidades e nível de vida no nosso país, é compreensível o porquê de serem raros os ilustradores que vivem apenas desta actividade.

 

O feminino e os elementos femininos figuram muito no teu trabalho? Porquê?

É inevitável. Tenho princípios feministas e acho que isso acaba por transparecer no papel onde encontro estas personagens heroínas da cena. Sempre segui mulheres fortes, no entanto tão subtis, e vejo a figura feminina tão bonita e sedutora que tenho de a representar com a paixão merecida.

 

Pensas que o elemento humano é sempre importante/relevante no mundo artístico (dependendo, claro está, do artista em si)? 

No meu caso é. Mas não consigo responder a essa pergunta. Acho que a abordagem de cada artista é isso mesmo, individual.

 

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Conseguiriam ser ou viver uma sem a outra? 

De certa forma já dei a entender a minha resposta anteriormente mas, a meu ver, a arte é vida e saber viver é uma arte. Estão juntas. São juntas. No entanto, também há pessoas sem arte na vida mas isso é outro assunto.

 

Da tua experiência, quais são os fatores mais positivos de criar? E negativos? 

Positivo é sem dúvida ter liberdade para transpor para qualquer suporte/material algo tão teu e tão único. Enquanto se cria, tudo se fecha à nossa volta e transportamo-nos para o tal universo interior que falei. Aí, perdemo-nos. Os negativos existem nos dias não. Quando não há inspiração, quando parece que trocámos de mãos ou cabeça e nada flui como queremos. Os factores negativos estão mais presentes, claro, quando o processo de criação tem regra ou condição, isto é, quando se destina mais à satisfação de um cliente e não tanto à nossa (no caso de trabalhos por encomenda, comissões,...).

 

Ilustras auto-retratos, retratos de pessoas ou figuras ficcionais que crias?

Um pouco de tudo mas maioritariamente figuras ficcionais com elementos auto-retrato.

 

Estás a participar numa exposição coletiva na galeria Red Nankim no Porto. Qual foi a reação do público ao teu trabalho?

Sim. Foi interessante. A maioria das pessoas que viu a exposição, principalmente na inauguração, foi no sentido de ir ver o trabalho de algum(s) ilustrador(es) que gostavam ou conheciam. Ao se aproximarem dos meus trabalhos expostos a reação era curiosa, por não conhecerem, e achei piada ao girar de cabeças para tentar desvendar a minha assinatura.

 

Onde é que te vês a chegar como ilustradora? Onde queres chegar? 

Quero manter o trabalho que faço e continuar a expor quando possível. Quero levar a minha ilustração a mais pessoas, talvez noutros suportes. Gosto de sentir que elas gostam do meu trabalho e que lhes desperta emoções e sentimentos e sinto-me reconhecida. Ainda assim é uma parte de mim que pretendo manter sempre paralela ao design gráfico.

 

Seguiste o teu sonho da ilustração. O que aconselhas às pessoas que querem fazer o mesmo e seguir também esse sonho? O que é preciso ter?

Sigam. Não sei dizer o que é ‘preciso’ ter mas penso que a paixão e o talento são a base. Persistência mas também consciência e, no meu caso, quando recebi bom feedback avancei.

 

Qual é a importância do design na nossa vida quotidiana? Na tua opinião, o público português está sensibilizado para isso? 

A importância é muita. É essencial diria. No entanto acho que o público português não está muito sensibilizado para isso. O que se passa é um atraso na evolução de mentalidades e na cultura portuguesa. Também falta a criação de oportunidades. O design ainda não é natural no nosso país. Se as coisas se endireitarem, pode ser que venha a ser reconhecido mas até lá quem se mete neste caminho sabe que vai levar uns pontapés.

 

Da tua experiência, o que pode o design fazer por nós enquanto seres humanos?

O design é uma ferramenta muito polivalente. Cria, ajuda e melhora tanta coisa. Pode tornar o mundo mais apetecível.

 

Queres fazer um convite a quem está a ler, para ficar a conhecer o teu trabalho?

Claro. Podem conhecer o meu trabalho nas páginas de facebook e instagram. Se quiserem ver o meu trabalho ao vivo ainda podem visitar a galeria Red Nankim no Porto até Novembro. Depois disso dou notícias...com uma nova exposição na manga.

 

Desafiada pela Dialetu a escolher um acessório de moda com o qual se identificasse, a ilustradora afirmou que "foi difícil escolher por isso selecionei um dos preferidos. O relógio Breda PaletteGrey. Acho um modelo funcional porque embora seja simples, não é abstrato como alguns onde é um desafio saber as horas. Gosto das cores, do material e do mostrador", defende.

 

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Publicado em Entrevistas

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